34-JACARÉ SORRATEIRO
JACARÉ SORRATEIRO Um dos meus amigos em Santos chama-se Bone; as estórias que êle, de quando em quando, me conta, despertaram em mim, nestes últimos dias, a lembrança de relatos datados de há muitos anos de vivência em São Paulo, SP. A que me acorreu à mente em primeiro lugar foi a daquela senhora que consultou o psiquiatra se queixando de que seu marido não saia da cama de jeito nenhum; alegava o paciente a ela que um jacaré se mantinha debaixo de sua cama com intenção de comê-lo assim que o homem pusesse o pé fora do leito. O psiquiatra confortou a assustada esposa afirmando que, numa capital como a de São Paulo, era loucura pensar-se na existência de um jacaré embaixo da cama. Deu a ela um calmante para que ela e êle tomassem duas vezes ao dia durante sete dias, ao fim dos quais, a suposta alucinação e o presumido delírio sumiriam. Algumas horas depois, toca o telefone do psiquiatra, que atende solícito. Identificada a mulher, o alienista pergunta: então, minha senhora, vocês já começaram a usar o remédio? Não, doutor, não... Doutor, aconteceu o pior... Aflito e pressuroso, estranhou o psiquiatra: Como assim? Que aconteceu? E, então, lamentosa, respondeu a mulher: Doutor, o jacaré comeu meu marido. Como um caso puxa outro, resolvi fazer a narrativa sôbre aquele jacaré personagem de "O Planeta dos Répteis": um papagaio todos os dias gritava para seu dono: "jacaré alí, jacaré alí". O dono, achando impossível um animal dêsse tipo dentro de casa, nem ligava para o que o papagaio dizia. O louro chegou, certa vez, a pontar para o canto onde êle via o jacaré, se apoiando numa perninha e suspendendo a outra e esticando um dedinho a indicar o local onde estaria o réptil; e o seu dono, nada, não ligava mesmo para a denúncia do assustado louro. Um certo dia, o homem chegou na sala e não encontrou o papagaio,o papagaio tinha sumido. Cheio de remorso, esquadrinhou todos os pontos da casa procurando o louro de estimação e o que achou foi um jacaré de barriga cheia, refastelado debaixo de uma mesa e que lhe disse, em tom de deboche: "Quem não cuida do bicho que tem, jacaré come". Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM - SP 7629 cortesdi@ig.com.br
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