61-D. LUCIA, A PARTEIRA
D. LUCIA, A PARTEIRA Dona Lúcia era aparadeira afamada na Ladeira da Preguiça, nas imediações da Rua Manoel Vitorino, em Salvador, BA. Até dos bairros do Unhão, Itororó e Campo Grande, vinham maridos afobados buscar a velha Lúcia para partejar a esposa, na iminência de botar no mundo mais um habitante. A analfabeta mas sábia "comadre" (parteira curiosa, não formada) exigia, para começar, boa água fervida, panos brancos bem limpinhos e isolamento no quarto, ficando ela com a parturiente que devia escolher uma aparentada ou amiga mais achegada para ficar, simplesmente, ao lado da paciente enquanto a velha Lúcia trabalhava a zona de baixo da grávida, na espera da cabeça do nenêm coroando nas partes íntimas da partejada. A acompanhante escolhida, ao lado, servia, apenas, para segurar a mão esquerda da paciente e apertar suavemente num afago amigo; e mais ainda, com um pano branco enxugava o suor que brotava da testa e face da dolorida mulher em trabalho de parto. Isto era lá pelos idos dos anos 30. Impressiona, no entanto, o fato de agora, em 2007, o ritual de D. Lúcia ser consagrado integralmente pela ciência médica. De fato, estudos realizados pelo Departamento de Enfermagem da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília concluiram que, no momento de dar à luz, a mulher é acometida de um temor inquietante que pode dificultar o parto e lesar o nascituro; vem um sentimento de solidão acompanhado de um complexo sofrimento em que a partejada mamãe é atingida por preocupações angustiosas com a integridade de sua genitália (partes íntimas), ansiedade com respeito à perda futura da capacidade de orgasmo, medo enorme de morrer, receio de não conseguir chegar ao fim do parto, de frustrar as expectativas do marido e dos parentes, de falhar na hora de a criança sair do corpo da mãezinha e expressar seu primeiro choro de alegria ao contato com o novo ambiente. Nota-se que o alívio da parturiente só é completo quando ela ouve o primeiro choro do filhinho ou filhinha. O recente trabalho científico foi conduzido pela pesquisadora-mestra Rejane Antonello Griboski que confirma hoje o que D. Lúcia já sabia há mais de 70 anos: durante o trabalho de parto, o melhor negócio é livrar a parturiente da solidão e do medo, mantendo sua mão esquerda, a mão do coração, afagada por alguem que, afetuosamente, estimule e eleve seu estado de ânimo, facilitando o parto e propiciando um nascimento sem sufoco, com mãe tranquila e bebê sadio. Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM-SP 7629
Voltar