53-ISABEL
ISABEL Um animado baile abrigava moçoilas aligeiradas que rodopiavam na beirada do salão, apoiadas em fortes e protetores braços de ciosos cavalheiros; o chorinho, um tanto rápido, quadrava com a inquieta e agil juventude das mocinhas. A mesa um pouco mais retirada da pista de dança, encostada na parede do lado direito de quem entra no Clube Nazareno, era ocupada apenas por uma jovem de idade aparente superior à idade da maioria das damas; teria ela lá seus 30 anos; solita, tinha a tez muito clara, talvez por palidez, não tomava qualquer bebida e não portava bolsa; seu olhar parecia distante; a seu derredor, pairava um clima de mistério e atração e evolava dalí o odor de caro e suave perfume. Januário era viciado em dança; nesta atividade dissolvia todo o seu tormento provocado pela rejeição que sofrera há meses, por parte da sua ex-noiva, Helenice. Mas a dança se tornara, ùltimamente, sem muita graça e, porisso mesmo, vinha preferindo sentar-se e analisar o ambiente, ficando a possibilidade de vir a dançar, em segundo plano. A jovem, alí por perto, solitária e enigmática, chamou-lhe a atenção; ainda mais que sua palidez lhe dava à face uma simpatia diferente; os olhares entrecruzaram-se em algum momento e a atração foi mútua e instantânea. Acercando-se dela, êle pressentiu uma união concreta como se de há muito se conhecessem; daí para várias rodadas de dança foi um tiquinho de tempo; no final do baile, lá pelas 3 da madrugada, o cavalheiro levou sua mais nova aquisição em matéria de dama, até a casa da moça, onde a deixou com um ardente e respeitoso beijo na lívida testa. Anotado com cuidado o número da casa, o nome Isabel já soava no coração de Januário como uma comovente canção de amor. Todo o dia seguinte do ourives Januário esteve ocupado por lembranças agradáveis da noite de ontem e da expectativa do reencontro na noite de hoje, às 8 horas, na mesma porta onde o par houvera se despedido com os corações ardentes de paixão. De pé, plantado imóvel ou com lentas caminhadas pelo passeio, Januário aguardou ansioso a abertura da porta por onde assomaria a figura da mulher esperada. Uma hora depois da hora aprazada e o ourives, um tanto acanhado, resolveu bater à porta com o habitual "ô de casa". Apareceu alguém, uma senhora de semblante entristecido e de visível finura de trato: boa noite, senhor; boa noite, minha senhora. E o rapaz passou a relatar o motivo de sua chegada alí, sendo que o interêsse da senhora fez com que ela pedisse que êle entrasse e sentasse para um cafèzinho; a essa altura, o marido da senhora completava um trio de surpresos diante dos acontecimentos das últimas 24 horas; pendurado na parede da sala, Januário viu o retrato da mulher que dominara sua emoções desde a noite passada. Realmente, as explicações do casal de anciões desiludiram o rapaz e lhe deixaram amargo sentimento de espanto e frustração. Bàsicamente, foi dito ao visitante apaixonado que a filha daquele casal, a Isabel em questão, gostava muito de dançar, porém que há 2 anos morrera vítima de infecção aguda; acrescentou-se, ainda, durante a conversa, que Isabel costumava aparecer em casa, à noite, em rápidos relances, sob a forma de sombras tênues exalando discreto odor de suave perfume. Esta estória era contada desde 1944, nos bairros populares de Salvador, BA. Sempre teve foros de verdade. A ciência vem estudando casos dêste tipo para confirmar sua veracidade. Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM - SP 7629
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