49-FIDELIDADE CANINA
FIDELIDADE CANINA Baby, diga-se babí, era esquiva, indiferente, com aparência de orgulhosa; sua única preocupação era vigiar sua proprietária, D. Noêmia. De fato, a Baby seguia assìduamente os passos de sua dona numa demonstração de carinho e zelo. Todo mundo na Rua Manoel Vitorino em Salvador, BA, sabia da existência da cadela e já se falava do animal como o protótipo da fidelidade. Na verdade, assim como a Baby, a grande maioria dos caninos é composta de espécimes representativos da lealdade que se espera nas relações de mútuo compromisso; em retribuição ao seu devotado comportamento, a cadela recebia um tratamento especial por parte de sua senhora e de todos os moradores da casa. Ficava-me, às vezes, a impressão de que a cachorra era consciente de sua importância e, eventualmente, abusava dessa circunstância rosnando e mostrando os dentes por qualquer dá-cá-aquela-palha. Como é na adversidade que se mostram os amigos, a Baby se revelou real merecedora das dignidades da casa, justamente quando D. Noêmia caiu doente; uma doença crônica, de evolução paulatina, afetou aquela mulher e a martirizou por 3 longos e penosos meses; pois bem, a entristecida cadela meteu-se debaixo da cama de sua dona e de lá não saia de jeito nenhum; aceitava com desdém alguma comida e água que lhe eram ofertadas no caneco e no prato colocados sob o móvel, reagindo furiosa a qualquer tentativa de se retirá-la daquele reduto de sofrimento. Numa noite de setembro, D. Noêmia, já pele-e-osso, deu um último suspiro, deixando êste mundo para habitar a morada da eternidade. Alguém, mais ativo, teve a memória avivada pela lembrança da cadela Baby. Abaixou-se e, no canto da parede, em ângulo com um pé da cama, jazia, esticada e fria, a cachorra Baby que, a esta altura, cuida ainda de sua dona em algum ponto do eterno espaço. Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM-SP 7629
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