47-CIUME PATOLÓGICO
CIUME PATOLÓGICO Uma união estável está em crise. O amor recíproco não vem sendo capaz de trazer de volta a paz que permeava aquela relação. Isadora fora flagrada pelo esposo em aparente colóquio telefônico com um amante. O fácies (expressão do rosto) da jovem revelava uma alegria idílica e se transformou, num átimo, em pavorosa surpresa ante a inesperada presença do seu marido, alí, de pé, naquele momento tão inoportuno. A cara-feia e os muxoxos acompanhavam o bico de desdém e a afetação de desconfiança que invadiram o coração do homem; a descrença nas explicações da mulher impediam a Noel o entendimento das reiteradas explanações de Isadora a respeito do acontecido. Entre as alegações da senhora estava a confissão de que um terceiro personagem compunha o cenário, porém, em circunstância simplesmente acidental; na verdade, uma voz masculina, por engano de discagem telefônica, procurou por alguma informação, mas, claro, no número errado; era exatamente disso que se tratava no momento em que ela atendera ao telefone; ao encerrar o telefonema o voz do outro lado fez alguma gentil lisonja à educação e à maciez do timbre vocal de Isadora; na presumida solitude de sua sala, ela se permitiu um discreto sorriso espalhando pelo semblante a alegria da vaidade feminina tocada pelo elogio. A gente entende fácil o episódio; difícil é fazer o Noel perceber a inocência do lance; a perda da confiança, por razões reais ou imaginárias, pode levar um casamento à destruição se as pessoas envolvidas não tiverem a mente aberta à compreensão; sem o diálogo franco e a disposição para a aceitação, não se consegue contornar os possíveis momentos de complicação do relacionamento. Na presente estória se percebe que o Noel, a partir da visão de um rosto alegre, passou a uma elaboração interpretativa que, de fato, estava desvinculada da realidade; a falsidade da Isadora era uma presunção que tomou força de certeza dentro da cabeça do Noel. A situação tornou-se quase insolúvel na medida em que o esposo, achando-se convencido da concretude de sua interpretação, revelou-se, em todo o transcurso do diálogo com a esposa, impermeável aos esclarecimentos da mulher. Felizmente, uma terapia de casal colocou o desentendimento em claro campo de mútua aceitação, criando-se, na sequência, um clima de confiança inteligente e firme, que é a condição exigível na proteção do amor. Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM-SP 7629
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