45-A JUSTIÇA DA MASSA
A JUSTIÇA DA MASSA O indivíduo sòzinho sabe quem êle é, onde mora, onde trabalha e, até, é possível que saiba, de cór, o número do seu RG. Diferentemente, o indivíduo que se agrupa perde um pouco essa noção de si mesmo; em compensação, passa a existir uma nova entidade com características próprias correspondentes ao somatório das pessoas incluidas no grupo. A somação dos indivíduos não ocorre por simples justaposição; o grupo não quer dizer que ficou cada um ajuntado ao outro, mas sim, à medida que a parceiragem aumenta, aumenta, também, em cada ser individual, a perda de sua individualidade em favor do nascimento de uma nova personalidade que se chama grupo; quanto maior a quantidade de componentes mais emocional é o grupo em detrimento da capacidade racional; no grupo, o indivíduo perde os freios da razão e, fàcilmente, envereda pelo caminho da amoralidade; a ética do grupo tende a rebaixar-se e, quando o grupo é tomado pela emoção, seu comportamento pode se tornar brutalmente primitivo. Em Santos, SP, armou-se um sangrento palco de sacrifício e morte: um popular foi apontado por pessoas do bairro como tendo abusado sexualmente de uma criança e, em seguida, matado sua vítima. Considerado suspeito, o rapaz ficou detido na delegacia de polícia para interrogatório e averiguação; decorridos alguns dias, as autoridades liberaram o sindicado por ter sido constatada sua plena inocência. Voltou o jovem a transitar livremente pelas ruas do bairro quando, então, passou a sofrer o julgamento de um numeroso grupo de moradores que, dominados por intensa emoção, penalizaram o cidadão, supliciando-o e, afinal, matando-o a cacetadas e pedradas. Dois dias depois, o exame do sêmen do verdadeiro criminoso confirmava que o homem espancado até a morte, realmente, nada tinha a ver com o crime. A ausência do juizo equilibrado deu lugar à pena de talião e, ao invés de uma vítima (a pobre criança), duas vítimas sucumbiram ao império da loucura. Ficou mais uma vez provado que o comportamento das massas é, comumente, tresloucado. Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM-SP 7629
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