44-O MANHOSO BIDU
O MANHOSO BIDU Zeni comprou um cachorro para fazer a vigilância de sua casa de negócio. A empreiteira estava indo bem e os haveres já estavam a exigir uma maior segurança contra os larápios que vagavam nas noites da Vila Mathias, em Santos. O animal precisava ser feroz e treinado na defesa de valioso patrimônio; assim sendo, nada melhor que um cãozinho filhote que cresceria amestrado para sua futura agressiva missão. Desde cedo, o pequeno canino mostrou uma carinha que alternava graça e sabedoria; daí, foi batizado com o nome de Bidu. Entre tantas coisas que um bidu deve saber está a diferença entre os limites do quintal de sua casa e a vastidão das ruas; e o Bidu simplesmente ignorava esse detalhe; poristo, saiu pela porta da frente, burlando a ateñção de todos e, indiferente aos perigos do mundo lá fora, embarafustou-se ao largo das vias públicas; jamais soube voltar ao seu saudoso lar e nem nunca fora encontrado pelo seu dono nem pelos sentidos simpatizantes que percorriam, pressurosos, os escaninhos da Vila Mathias. Depois de dez dias de infrutíferas buscas o Zeni encontrou um biduzinho sujinho, assustado e arredio; não era aquele, mas tinha muito em comum, tinha focinho, tinha rabo, tinha pernas longas e a carinha medrosa revelava alguns traços de sabedoria; por aí não faltou razão para considerar o novo achado como sendo o próprio Bidu, aquele que sumiu... E pronto, foi Bidu p'rá lá, Bidu p'rá cá e ficou, por fim, o Bidu mesmo. Quando não se tem um Bidu coloca-se no lugar outro Bidu mesmo, mesmo que não seja aquele Bidu. A perda do primeiro Bidu criou um clima de superproteção para o atual Bidu, de modo que, como todos sabemos, excesso de proteção gera criaturas manhosas, cheias de vontade, caprichosas e exigentes. É o que acontece com o tal do Bidu, êste sistemático torturador do dono e de sua vizinhança, exigindo, pontualmente, com insistentes latidos, o café da manhã, o almoço e o jantar. Êle parece ter relógio no pulso. O animal é curioso, arguto e sensível, late chorando a falta do dono e uiva de saudade dos vizinhos. Muitas vezes apreciando a vizinha acariciar o cocuruto do animal enquanto lhe prodigaliza pedacinhos de pão de milho, fico pensando que não é tão mau levar uma vida de cachorro, só depende de ser Bidu ou não. Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM-SP 7629
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