42-DIA DOS NAMORADOS
DIA DOS NAMORADOS Antigamente, e faz tempo isto, o namôro era um desafio à paciência e ao contrôle do sistema nervoso. A jovem na janela, calculava a hora da passagem de seu príncipe pela outra calçada para, de longe, esboçar um aceno de aceitação; e isto se repetia por meses, até que acontecesse um encontro face a face em alguma festa de Santo Antônio quando, então, os pais permitiam à mocinha se misturar a outras moças e rapazes, postados diante do altar improvisado num canto da casa de alguma vizinha festeira. Durante a reza, a cabeça da mocidade crente se dividia entre o culto ao Santo Antônio e ao Santo do Amor que é Cupido; acompanhando o Pai-Nosso fluiam murmúrios sofridos de corações apressados na busca da prosa com o feliz eleito. Olhares de significado secreto, fugidios e envergonhados, levavam ao auge da emoção quando as condições facilitavam um sôfrego triscar de mãos: era o idílio que enlevava a alma ao paraiso da doçura; depois, ficava aquela sensação de presença quando cada um dos apaixonados já se encontrava em sua casa. O coração pulava e soava com um baticum no peito, o sono ficava dificultado mas as ousadas imagens da lembrança compensavam a penosa sofreguidão da perturbadora temperatura que se elevava comose fosse febre. Hoje, as coisas mudaram e, num vapt-vupt super-rápido, antes que os jovens saibam qual a natureza de seus mútuos sentimentos, já estão envolvidos em incisiva intimidade. Os tempos mudam mas permanece igual o rei da felicidade que é o soberano amor, que permeia as emoções e estimula o ser humano a vencer as adversas contingências das circunstâncias e transformar a vida em deslumbrante sonho colorido. Wilson Ayres Côrtes médico psiquiatra CRM-SP 7629
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